NOTÍCIA

Menorca, charme Mediterrânico!

2018-03-02
Alma de Viajante
António Sá e Ana Pedrosa
Ferias Espanha

Menorca é uma surpresa. A mais tranquila das Baleares possui 256 quilómetros de costa recortada por arribas selvagens, praias idílicas, enseadas povoadas por veleiros, variados monumentos pré-históricos, duas encantadoras cidades e um número infinito de estradas rurais e veredas para explorar com calma.

Deitada no terraço, abro os olhos para o céu da tarde. Uma calidez sem brisa justifica a siesta e o silêncio envolvente: nenhum carro passa na rua, nenhum grito infantil chega do areal e até os melros que normalmente animam os pinheiros parecem manter-se a uma respeitável distância. É então que surge uma nuvem. Ou antes, um ponto gordo e branco que desliza à mercê do vento das alturas e se dissolve num lento espreguiçar até desaparecer sem deixar rasto.

Ah! O dolce far niente do primeiro dia de férias. Passear, ler, mexer um dedo que seja, são pensamentos adiados, quando nem pensar apetece. Não é estado de espírito que dure muito tempo, no entanto. Pelo menos em Menorca, um destino que pede para ser explorado, desvendado por quem se dá ao cuidado de lhe desenterrar os segredos (sim, ainda os tem!), percorrido com vagar, porque essa é a única forma possível.

A medieval Ciutadella

Assim caminho por Ciutadella, saboreando a sua atmosfera medieval, inequivocamente mediterrânica. A suave luminosidade que penetra nas vielas reflete-se em casas de cores claras onde as venezianas abertas tanto mostram humildes interiores domésticos como lojas do mais requintado design.

Por vezes é nos becos mais anónimos que se encontram as maiores surpresas, como a fachada de uma igreja de colunas calcárias roídas pelo tempo, imponentes casas senhoriais de átrios sumptuosos ou muros altos de onde as heras se escapam para revelar o recato dos jardins.

Capital primeira da ilha, há muito que Ciutadella perdeu o título a favor de Maó, mas é sua a pose aristocrática, os edifícios mais antigos, a história inscrita nas velhas lajes do chão. Como testemunha a catedral, transformada em pira gigantesca pelas hordas turcas quando invadiram a cidade no ano de 1558, ainda hoje assinalado como o de sa desgràcia pela destruição causada.

Na realidade, a ilha foi desde cedo palco de pacíficas trocas comerciais a invasões, pilhagens e batalhas, conforme os reinos se sucediam nas costas do Mediterrâneo. Às visitas periódicas de fenícios e gregos, seguem-se cartagineses, romanos (que haveriam de chamar Minorica à segunda maior ilha das Baleares), bizantinos e árabes. Depois da conquista catalã, a ilha será ainda uma colónia inglesa, durante a maior parte do século XVIII.

Tendo sido nessa altura que o governo mudou para o lado oposto da ilha, não é em Ciutadella que se devem procurar as influências britânicas. No burgo antigo o tempo ainda é outro. Logo que as noites aquecem, cadeiras de lona desaguam para a rua com vizinhos tagarelas que não deixam de cumprimentar quem passa, enquanto de uma janela se escapam ensaios de orquestra, anunciando as concorridas festas de S. João – mais um motivo que enche os locais de orgulho.

Entretanto os visitantes concentram-se nas ruas contíguas à praça de Es Born, onde a bela Câmara Municipal rivaliza com numerosos palácios, o convento de Sant Francesc e o edifício do teatro. É daí, espreitando sobre a antiga muralha, que se avista o porto iluminado por dezenas de restaurantes especializados em tapas e mariscos.

Quantos lugares nos permitem uma escolha assim? À noite toda a agitação que quisermos, na manhã seguinte a mais absoluta pacatez, junto ao litoral ou no interior. O melhor é começar por elaborar um roteiro. Por áreas ou motivos de interesse, porque as estradas existentes não permitem um trajeto contínuo.

Menorca, Reserva da Biosfera

Espaços naturais protegidos são dezanove, que ocupam 43% de um território cujo comprimento não ultrapassa os 48 quilómetros, divididos por áreas costeiras, barrancos selvagens, montados de azinheiras e uma extensa zona húmida ? a Albufera des Grau -, razões suficientes para a UNESCO destacar Menorca com o título de reserva da Biosfera.

Só mesmo os amantes das montanhas poderão ficar dececionados: o ponto mais elevado da ilha, o Monte Toro, queda-se por uns humildes 358 metros de altitude. É antes o terreno ideal para andar de bicicleta, em veredas sombreadas por bosques densos ou estradas rurais que raramente veem passar um automóvel. O caminho que leva ao farol de Punta Nati é uma boa escolha.

O farol fica a uma dezena de quilómetros de Ciutadella, dominando sobre uma vasta paisagem rochosa. e um pedaço de Mediterrâneo, tão largo e azul como o céu que reflete. Uma rede interminável dos chamados “muros de pedra seca” divide campos de erva dourada, onde rebanhos de ovelhas fazem companhia às gaivotas, únicos seres que habitam esta solidão.

Pelo meio, dezenas de estranhas construções completam o enigmático cenário. São os ponts ou barraques de bestiar, abrigos para gado cuja forma, uma espécie de pirâmides circulares com vários patamares de altura, remete para outros indícios.

Falo nos monumentos deixados pela cultura “talayótica”, vestígios do povo que habitou as Baleares entre 1.400 a.C. e o início da nossa era, legando a Menorca a sua marca mais profunda. Pouco mais se conhece desses homens, além da sua arte de transformar a pedra abundante em misteriosas obras ciclópicas. De povoados rodeados por muralhas, a necrópoles escavadas nas arribas costeiras, de talayotes, torres cónicas que serviriam de atalaia, a taulas e navetas, a herança até agora encontrada perfaz a extraordinária média de 2,5 monumentos por quilómetro quadrado.

A lista de lugares imprescindíveis é, por isso, extensa, e incluí nomes como Torre d’en Gaumés, Talatí de Dalt, Torralba, Rafal Rubí, Cales Coves. Trepucó, a mais alta das taulas (construção megalítica em forma de “T”, de significado obscuro), demasiado famosa para ser apreciada em sossego, foi a que menos me impressionou. Em contrapartida, Torre Trencada obriga a percorrer um dédalo de caminhos, deixar o automóvel e seguir por um trilho estreito rodeado de arbustos e oliveiras-bravas, onde tentilhões e carriças se esmeram nos trinados. No final, surpreende o encontro com milénios de história num ambiente tão bucólico.

O mesmo acontece com a Naveta d’es Tudons, se reservarmos a visita para o fim da tarde, depois da partida dos autocarros de turistas. Tendo o canto das cigarras como única companhia, o admirável túmulo coletivo parece emanar uma aura especial, como se um navio petrificado navegasse através dos séculos para encalhar ao crepúsculo, mesmo ali aos nossos pés.

Sacudo o misticismo quando chego a Maó. É uma cidade clara e cosmopolita, com um constante fluxo de gente a percorrer as ruas de fachadas garridas, as elegantes esplanadas da Baixamar e a larga escadaria que nos eleva ao velho núcleo onde as igrejas saúdam os primeiros raios de sol que iluminam Espanha. Toda essa luz é refletida pelas águas do porto, na realidade um delgado braço de mar com cinco quilómetros de extensão, cruzado por um vaivém de ferries, iates luxuosos e catamarans com fundos de vidro.

Naturalmente, é nos seus arredores que se encontra a maior parte da população e das estâncias turísticas, nem todas de bom gosto. Alcalfar é uma exceção. Apesar de pioneira no turismo da ilha, consegue manter a atmosfera de pacata aldeia piscatória, com barcos pequeninos que parecem planar sobre as águas transparentes junto a armazéns escavados nas rochas.

Fornells, a norte, inspira o mesmo sentimento. Nem a fama dos restaurantes que servem o mais conhecido prato ilhéu -? a caldereta de lagosta -, nem as dezenas de mergulhadores que chegam atraídos pela riqueza dos fundos marítimos da reserva de Cavalleria conseguem perturbar a sua alva serenidade. Uma fiada de palmeiras na margem da baía, casario pintado de branco até ao telhado, uma igreja humilde ao centro, o toque da cor das buganvílias em pátios diminutos, são os ingredientes para uma estadia mais que perfeita.~

As calas de Menorca

E, a propósito de perfeição, é altura agora de falar nas calas. Nas da costa sul em primeiro lugar, porque são as que mais se aproximam da imagem de paraísos distantes. Não são grandes extensões de areia, antes pequenas enseadas abrigadas por penhascos onde a sombra dos pinheiros faz a vez de guarda-sol.

De águas mornas, claras e mansas também elas se abrigam ao fundo de longos caminhos de terra. O acesso às mais conhecidas (Turqueta, Macarella, Mitjana) obriga mesmo ao pagamento de uma taxa aos proprietários dos terrenos privados.

A recompensa é um cenário intocado que, se chegarmos cedo, podemos imaginar ter acabado de descobrir. No litoral norte são ainda mais isoladas, ideais para fugir das multidões mesmo no pico do verão, protegidas por cordões dunares e labirintos de trilhos: areais dourados como Pregonda ou as praias gémeas de Algaiarens, são lugares a não perder, se o tempo der para tanto.

Gastronomia menorquina

O prato mais conhecido da ilha é a caldereta de lagosta. Embora se encontre um pouco por todo o lado, os restaurantes de Fornells especializaram-se na sua confeção a preços que rondam os ? 50 por pessoa. Ali, os entendidos aconselham o Café del Nort, o Es Cranc e o Es Pla. Mariscos como o lagostim e as amêijoas e diversos tipos de peixe também fazem parte das especialidades locais. O arròs de la terra (na realidade uma espécie cuscuz) e as beringelas no forno são outros pratos fortes de uma cozinha mediterrânica com influências árabes, inglesas e francesas. Não deixe de provar o queijo de Maó, e o gin menorquino, obtido a partir do álcool de vinho e não de cereal (como o original britânico) e aromatizado com bagas de zimbro. Durante as festas é costume beber-se gin com limonada, numa mistura conhecida como pomada.

 

Diz-se ainda que a receita da popular maionese (mahonesa em castelhano) é originária da ilha, tendo sido levada para França pelo Duque de Richelieu.

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