Açores: Um cheirinho da Ilha de Santa Maria (um roteiro de 72 horas)

13/07/2020

Decidi visitar a Ilha de Santa Maria por impulso. Ou melhor, porque vi voos muito baratos entre Portugal continental e as ilhas açorianas e me pareceu uma excelente oportunidade para voltar aos Açores. Escrevi ao meu irmão Telmo, que mora há muitos anos no Faial, com uma pergunta: “Quero ir três dias para os Açores; sugeres Corvo, Flores ou Graciosa?”. Ele respondeu com duas palavras apenas: “Santa Maria”. Uma semana mais tarde, aterrava na Ilha de Santa Maria.

Neste texto, vou partilhar tudo o que fiz durante as 72 horas em que estive na ilha mais meridional do Arquipélago dos Açores. É uma espécie de roteiro de três dias em Santa Maria, mas sem ter por objetivo que o siga passo-a-passo. É apenas uma forma de o ajudar a decidir o que fazer em Santa Maria. Vamos a isso.

Este foi o meu roteiro na Ilha de Santa Maria.

Dia 1 (fim de tarde): Vila do Porto

Vila do Porto

Aterrei no aeroporto da Ilha de Santa Maria a meio da tarde. Esperei pelo autocarro dos TSM (Transportes de Santa Maria) e fui direto ao Hotel Charming Blue, onde fiquei alojado, bem no coração de Vila do Porto, a principal povoação da ilha.

Check-in efetuado, fui aproveitar os últimos raios de sol para fotografar e ter um primeiro contacto com Vila do Porto.

Quando passei em frente ao estúdio do fotógrafo Pepe Brix, já fechado ao público, lembrei-me que tinha ficado de lhe ligar. Não o conhecia, mas uma amiga comum tinha-me dito que nós tínhamos mesmo de nos conhecer. “Entra; estou cá dentro a trabalhar”, respondeu-me. Acabámos por ficar longamente à conversa – sobre fotografia, sobre viagens, sobre novos projetos -, e depois jantámos no Central Pub.

Antes de nos despedirmos, ao saber dos meus planos para explorar a Ilha de Santa Maria, Pepe ofereceu-me a sua velha carrinha. Avisou-me dos travões já cansados, do limpa para-brisas inexistente, do retrovisor caído, antes de dizer: “as chaves estão na ignição”. Sorri. É uma das coisas que me lembro bem da época em que o meu irmão foi viver para o Faial, há mais de 15 anos. Ele tinha um jeep Mehari e deixava sempre as chaves na ignição, para o caso de algum amigo precisar do carro. E isso sempre me fascinou.

Recolhi relativamente cedo ao hotel. No dia seguinte começaria a explorar Santa Maria.

Dia 2: Costa Norte de Santa Maria + Trilho Pedestre

Eu tinha pensado fazer o Trilho da Costa Sul logo pela manhã mas, na noite anterior, ao jantar, um mariense amigo de Pepe recomendou que o fizesse durante a tarde, porque teria melhor luz para fotografar em virtude da orientação da costa. E assim fiz. De manhã, ao invés, peguei na velha carrinha e rumei à Costa Norte.

Anjos

A aldeia dos Anjos fica na parte norte da Ilha de Santa Maria. À entrada da povoação, junto à Ermida de Nossa Senhora dos Anjos, avistei imediatamente uma estátua de Cristóvão Colombo. Consta que o descobridor espanhol ali “mandou celebrar uma missa após o seu regresso da América”, nas palavras da literatura oficial.

Segui até à baía e estacionei a carrinha na marginal. Alguns homens pescavam, tranquilamente. Anjos estava sossegada. Tirando o barulho das ondas, silêncio. Sendo inverno, o clima não convidada a banhos. E o festival internacional Santa Maria Blues ainda estava longe. Não havia, pois, muito a fazer.

Depois de alguns minutos a contemplar a baía, apareceu uma moradora em passo apressado. Perguntei-lhe o melhor caminho para o famoso “deserto vermelho” de Santa Maria e fiz-me de novo à estrada.

Barreiro da Faneca (Deserto Vermelho)

O Barreiro da Faneca é uma das mais insólitas paisagens de Santa Maria – porventura de todo o arquipélago dos Açores. Trata-se de uma paisagem semi-desértica, em tons amarelados e avermelhados, rodeada por  bastante vegetação que, entretanto, foi classificada como Área de Paisagem Protegida.

“O Barreiro da Faneca consiste numa vasta área de terreno árido pertencendo principalmente à unidade geológica denominada Formação das Feteiras, a qual corresponde ao vulcanismo mais recente ocorrido em Santa Maria, de caráter essencialmente explosivo e constituído por piroclastos que foram, posteriormente, alterados em argilas vermelhas, provavelmente sob ação de um clima quente e húmido”, in placard informativo à entrada do Barreiro da Faneca

Cheguei lá na carrinha, logo após passar pela Ermida de Nossa Senhora do Pilar. Estacionei e comecei a calcorrear o Barreiro da Faneca. Até que reparei que havia marcas de pneus que continuavam até ao outro lado do “deserto” e voltei para pegar na carrinha. E assim atravessei todo o Barreiro da Faneca a caminho da próxima paragem.

Poço da Pedreira

Não estava nos meus planos dar a volta à ilha mas, olhando para o mapa, optei por seguir em direção a Santa Bárbara em vez de regressar de imediato a Vila do Porto. Talvez desse para espreitar a Baía de São Lourenço, pensei.

A região de  Santa Bárbara é um dos locais onde é possível observar as típicas casas marienses, edifícios térreos que foram buscar raízes arquitetónicas às casas tradicionais do Alentejo e Algarve, região de origem dos primeiros povoadores de Santa Maria.

Adiante, num cruzamento de uma aldeia cujo nome não sei precisar – seria mesmo em Santa Bárbara? -, um homem visivelmente embriagado pediu-me boleia para “a vila”. Parei e deixei entrar “Carlão”. Ficou surpreso por me ver ao volante – em vez de Pepe. Disse-lhe que antes de regressar a Vila do Porto queria passar na Baía de São Lourenço e ele, com ar de quem tinha todo o tempo do mundo, até gostou da ideia. Durante o trajeto, começou a vestir a pele de guia turístico, indicando-me coisas para ver, sempre atento a algum tasco que pudesse estar aberto assim que a sua cerveja chegou ao fim.

Quando chegámos às proximidades do Poço da Pedreira, disse para eu parar que me ia “mostrar uma coisa”. E assim fiquei a conhecer uma antiga pedreira, de onde se retirava manualmente pedra de “cantaria”, para a construção das casas tradicionais da ilha, especialmente para a freguesia de Santa Bárbara. Na base da parede vertical e geométrica, que assim ficou fruto da exploração da pedreira, formou-se um lago: o tal “poço”.

Depois de uns minutos a observar o Poço da Pedreira, desci então até à Baía de São Lourenço.

Baía de São Lourenço

A primeira visão do anfiteatro de São Lourenço foi impactante. A estrada serpenteia encosta abaixo em curvas e contracurvas, e os três miradouros estrategicamente instalados em curvas a 180 graus permitem parar para observar.

De um deles, para além da beleza da baía em forma de anfiteatro, do azul-esverdeado das águas, da praia e piscinas naturais muito concorridas na época balnear, da pitoresca localidade lá ao fundo, o que me chamou mesmo a atenção foram as vinhas muradas – currais de vinha – que tornavam a paisagem geométrica, moldada por mão humana.

Apesar de alguns estarem abandonados, os currais de vinha fizeram-me de certa forma lembrar as vinhas da Ilha do Pico. Em Santa Maria, são característicos de São Lourenço e também do Lugar da Maia, como ainda haveria de ter oportunidade de ver neste mini roteiro de três dias em Santa Maria.

A manhã tinha já entrado tarde adentro, pelo que era hora de regressar a Vila do Porto para almoçar. Da parte da tarde, iria fazer o Trilho da Costa Sul.

Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo / Casa dos Fósseis

De regresso a Vila do Porto, e depois de um almoço buffet no restaurante Os Marienses, passei no hotel. Em conversa com Vera, a simpática rececionista do Charming Blue, falei-lhe dos meus planos para percorrer o Trilho da Costa Sul durante a tarde. “Passe no centro de interpretação antes de fazer o trilho”, sugeriu. “Vai perceber melhor o que vai ver no passeio”. Ficava, literalmente, do outro lado da rua.

O Centro de Interpretação Ambiental Dalberto Pombo alberga o espólio do naturalista Dalberto Pombo, pioneiro no estudo da diversidade geológica e biológica da Ilha de Santa Maria. É possível observar animais reconstituídos, como borboletas e escaravelhos dos Açores e aves migratórias.

Mais recentemente, foi criada uma ala dedicada aos fósseis marinhos – a Casa dos Fósseis -, que eu visitei um pouco a correr dado o adiantado da hora; é que estavam a ser quatro da tarde e eu queria fazer o Trilho da Costa Sul (entre Vila do Porto e a Praia Formosa) e chegar antes de anoitecer. Saí do centro de interpretação e caminhei até ao Forte de São Brás.

Trilho da Costa Sul

O Trilho da Costa Sul começa junto ao Forte de São Brás, em Vila do Porto. Após sair do perímetro urbano da vila, o trilho segue por um caminho de terra batida suficientemente largo para passarem automóveis. Em pano de fundo, turbinas eólicas beneficiavam de algum vento – não muito – que se fazia sentir na costa sul de Santa Maria. Passei na Pedreira do Campo, atravessei campos verdejantes com o mar pintado de azul forte, as costas aquecidas pelo sol vespertino e o céu quase sem nuvens.

Adiante, encontrei a descida para a Prainha. As vacas pareciam desconfiadas quando me viram “invadir” o seu terreno de pasto, mas estava apenas a seguir as indicações em direção à escarpa. As vistas eram belíssimas e a luz quente do final de tarde em muito contribuía para o meu estado de espírito encantado. Só me apetecia fotografar, fotografar.

A última parte do passeio foi efetuada junto ao mar, subindo e descendo as escarpas entre as pequenas enseadas do litoral rochoso que separam a Prainha da Praia Formosa.

Caminhei sempre sozinho.

Praia Formosa

Cheguei ao final da tarde à Praia Formosa, local onde, no verão, decorre o Festival Maré de Agosto. O areal era inexistente, mas consta que no verão a Praia Formosa se transfigura completamente, transformando-se numa das praias mais procuradas de Santa Maria.

Pela minha parte, nada tinha a fazer na Praia Formosa. Esperei por um amigo que ficou de me ir buscar e regressei a Vila do Porto. O dia estava praticamente a chegar ao fim.

Dia 3: Lugar da Maia, São Lourenço e Pico Alto

Miradouro dos Picos

Tinha combinado com Henrique Melo, um dos sócios da agência SMATUR, acompanhá-lo ao extremo sudeste de Santa Maria. Muito especialmente, eu queria conhecer a zona do Lugar da Maia. No caminho, fizemos uma paragem estratégica no Miradouro dos Picos para que eu pudesse ter uma perspetiva diferente da ilha e, claro, fotografar.

Lugar da Maia

O objetivo principal da manhã era conhecer a Baía da Maia. Antes de mais, fui espreitar as vistas junto ao Farol de Gonçalo Velho. O dia estava soalheiro quanto baste, embelezando de contraste e cor as encostas povoadas de currais de vinha nas proximidades do extremo sudoeste da Ilha de Santa Maria. Uma espécie de fim da linha, ventoso e belo como todos os “fins do mundo”.

Desci depois à aldeia quase deserta. Imagino que seja muito procurada pelos marienses durante o verão mas, naquele dia invernal, apenas avistei três ou quatro homens, trabalhadores da construção civil em pausa para o almoço. Mas Henrique tinha um objetivo que ia além da simples observação do povoado: queria mostrar-me o Geossítio da Cascata do Aveiro que, no alto dos seus quase 110 metros, é uma das maiores quedas de água de Portugal.

Cooperativa de Artesanato Santa Maria

Em conversa com Henrique, tinha-lhe dito que me interessavam não só paisagens e caminhadas, mas também aspectos gastronómicos como uma tasquinha, ou pormenores mais tradicionais como o artesanato. Foi quando sugeriu levar-me à Cooperativa de Artesanato Santa Maria, em Santo Espírito.

Quando cheguei à cooperativa, havia meia dúzia de mulheres sentadas em redor de uma grande mesa retangular a fazer biscoitos de orelha. No dia anterior já os tinha comprado num supermercado e conhecia por isso o sabor. Ainda assim, insistiram para que provasse – eram deliciosos.

O mais curioso daquela cooperativa é que, tivesse eu visitado durante a tarde, teria encontrado as mesmas mulheres, não a fazer biscoitos, mas a produzir nos teares colchas e outras peças em linho e lã. A manhã acabara de ficar mais diversificada e interessante.

Regressei depois a Vila do Porto para me encontrar com Miguel Marques, também da SMATUR. À tarde, seria na sua companhia que iria explorar outros recantos da ilha.

Baía de São Lourenço

À tarde, por sugestão de Miguel, voltei então à Baía de São Lourenço. Queria fazer mais fotografias e, na verdade, São Lourenço é um dos lugares da Ilha de Santa Maria onde não me cansaria de regressar vezes sem conta. Outro é o Lugar da Maia. Adorei a paisagem de ambos, a orografia a fazer lembrar as fajãs como em São Jorge, os currais de vinhas, o cuidado e o ambiente tranquilo do povoado. Faltava deixar o litoral e subir ao ponto mais alto da ilha.

Pico Alto

O Pico Alto é o ponto com maior altitude da Ilha de Santa Maria. No trajeto para São Lourenço, tinha passado no Pico Alto na esperança de que as nuvens que entretanto o tinham coberto se dissipassem por uns instantes. Mas não tive sorte. No regresso, antes de voltar à Vila do Porto, eu e Miguel voltámos a tentar.

O cenário parecia pouco animador mas, aos poucos, foi-se abrindo uma “clareira” por baixo de uma cobertura cinzenta de nuvens espessas. Não deu para vislumbrar toda a ilha, numa perspetiva de 360 graus, mas foi melhor que nada. A vista era inspiradora.

Tinha sido um dia comprido e eu ainda queria ter oportunidade de experimentar o Mesa d’Oito, muito provavelmente o melhor restaurante de Santa Maria.

Dia 4 (manhã): Vila do Porto

Vila do Porto

Na última manhã em Santa Maria, optei por ficar no hotel Charming Blue a trabalhar, até porque, ao contrário do dia anterior, o céu estava cinzento e o dia pouco convidativo. Estava satisfeito com a minha primeira visita à Ilha de Santa Maria.

Não tinha, por isso, nada planeado e decidi aproveitar o tempo para editar in loco as fotos de Santa Maria. Eram 11:30 quando apanhei um autocarro da TSM rumo ao aeroporto. Foi o final de uma curta mas muito interessante viagem a Santa Maria.